Quarta-feira, 24 de Agosto de 2011

A CHAVE


A Chave

Desce em mim uma mão,
Veste-me uma idade,
Rompe uma imagem,
Nasce a saudade,

Sei que me sentes,
Sei que és verdade,
Templo sagrado,
Densa intensidade,

Mudou-se a cor,
Cambiam-se unidades,
Lêem-se realidades,
Fecham-se metades,

Minha flor,
Minha mulher menina,
Sou o teu crescente,
És tu! Minha Chave.

M5B
2011.08.23




Sexta-feira, 19 de Agosto de 2011

ABELHA RAINHA


Abelha Rainha

Há em ti um deserto,
Um tempo regular e seguro,
Sumo de um fruto maduro,
Fonte do lume adulto,

Há em ti desempenho,
Caule formoso,
Ponto sereno,
Uma marcha de odores,

Eis que te anuncias,
Eis que me recebes,
Teu grande Cão,
Mestre interior,

Mas porque me visitas,
Mas porque és pingo agitador,
E penetras neste mundo,
O teu ferrão do Amor.

M5B
 2011-08-17

Sábado, 30 de Julho de 2011

A MÁSCARA


A Máscara

Beijava-te e não estavas,
Mexia-te e não vinhas,
Abraçava-te, reprimias-me,
Entrava, fugias,

Oferendas de água que não bebias,
Alimento que não comias,
Sustento e suprimento,
Unguento e calor do meu vigor,

De onde chegas-te eu não vi,
O que fitavas eu seria?
Inerte e desamparado,
Alvo fácil da tua mira,

Ao engano te entregas,
No desencanto eu gemia,
Não ouves nem entendes.
Naquilo que interessa ludibrias,

Escuta rapariga da máscara,
Sou muito mais que folia,
Foste o sonho e a lâmina sangrenta,
Repouso finalmente da agonia,

Agradeço com este peito a chave e desfeita,
Abençoo-o a pantomina,
Mesmo nela vive uma verdade serena,
Rompe-se cumplicidade, reergue-se a alegria.

M5B


Sábado, 23 de Julho de 2011

A TEIA


A Teia


Abres a tua lânguida luz,
Deixas ver a nervura,
Mexer e saborear a tua temperatura,
Hálito de flor carnívora,

Lentamente o pomar acorda,
Serpenteando a tua mão demora,
Germina o teu querer,
Vislumbram-se as colinas dos seios,

Ofereço rendição num abraço,
Silêncio o grito das mãos,
Modero a força do membro recto,
Entro no teu canto de sereia,

Simulas espasmos e vigores,
Não és o ardor felino,
Curvas-te desobediente e húmida,
Sujo-te de mim, escapo da teia.

M5B


Terça-feira, 7 de Junho de 2011

SERPENTE ALADA


Serpente Amada

És a vida réptil extrema,
És vigilante seguro e superior,
Serpente fêmea adulta e esguia,
Veneno letal que vicia,

És o gume do Demo,
No inferno da agonia,
Sou o teu servo fiel e eterno,
És a lua dos meus dias,

Nada te foge ou desafia afrontar,
Aplicas longos golpes precisos,
Usas lâminas rombas e frias,
Derrubas os inimigos com mestria,

Mas a doce realidade,
É que não te cabe qualquer maldade,
Nem mentira ou vilania,
Eis a verdade! És o advento da manhã.

M5B


Sexta-feira, 3 de Junho de 2011

Sopro da Vida


SOPRO DA VIDA

Obedece, dá-me a tua castidade,
Dá-me o cheiro de três,
Sopro-te, gritas, tentas resistir,
Meto um dedo lentamente de cada vez,

Debates-te ainda vestida,
Retiras o cabelo da fita,
Apertas as coxas despidas,
Mostro-te o meu trono montado, ergo o arpão,

Falas a lingua das éguas submissas,
Escorres liquido fundido,
Afastas as pernas e aguardas,
Nasce radioso um grosso caule,

Observo-te, és toda cadela,
Ergo o meu halo, sou o teu senhor,
Dou-te falo, comprometes-te, bebes de quatro,
Cuspo, cubro-te, sujo o teu interior.

M5B
2011-06-03


Sábado, 14 de Maio de 2011

SETE


7

Acha-se o numero primordial,
Leve pluma do regente,
Estóico em vontade resoluta,
Água feminina da verdade,

Chave da dureza filosofal,
Valor da marca maternal,
Sal cristalino do pranto,
Robe do mestre lunar,

Escalam-se os milénios,
Escrevem-se os primeiros elementos,
Abre-se a memória intemporal,
Brilha a sombra finda o dia,

Seja guerra relampejante,
Seja o derradeiro sopro,
Seja o beijo do dragão,
Só o sete comanda incessante sem rival.

M5B
2011-05-09


Domingo, 1 de Maio de 2011

RARO MOMENTO


Raro Momento

Veio o falo eleito,
Veio o liquido perfeito,
Jorrou a nascente ardente,
Entrou imparável em fileira,

Aportou dentro do ovo salgado,
Entronou-se campeão á chegada,
Cresceram unidos no escuro,
Desceu inteira a nuvem Lua,

Já formado em carne,
Já gaiato ou ventre feito,
Recolhido no posto fetal,
Protegido no macio casco,

Finalmente esgota-se a viagem,
Anuncia-se o mundo,
Estremece o dia primeiro,
Saio de ti Mãe sobreira.

M5B
2011-05-01



Segunda-feira, 25 de Abril de 2011

INFANTE


INFANTE

O Oceano é meu Templo,
A erva minha taça de sangue,
O orvalho o momento sereno,
A vontade a arma suprema do Infante.


"O grande poder está nas pedras que não se movem e silenciosamente vivem pacificamente, felizes e serenas, milhares de anos".
M5B
2011-04-25


Segunda-feira, 11 de Abril de 2011

DORA AVANTE


Dora Avante

Amável brisa de Monsanto,
Água perfumada de nuvens,
O temor e a desilusão,
Desvanecem no teu mural,

Sopro de íris delicada,
Madrugada árabe e fresca,
Orla vigilante do Alecrim,
Semente dormente do pecado,

Dúctil artista do silêncio,
Morna presença duma história,
Em ti repousa uma chave morena,
Via láctea do Jasmim,

Que sejas pura e suprema,
Como te leio e admito,
Dou-te asas, dou-te sina,
Dou-te a lança do teu interior Carmesim.

MB5
2011.04.12

Domingo, 10 de Abril de 2011

AURORA DO BEIJO


Aurora do Beijo

Existe o acaso e a memória,
Há chamas com o gosto do tempo,
Intercepções de olhares atentos,
Contactos profundos sem presença da matéria,

Assim gravo as passagens,
Assim explico os teus movimentos,
Setas certeiras do teu entender extenso,
Vontade plena e levitação extra terrena,

És um continente oceânico,
És a Terra profana,
És a fertilidade professada,
És o ventre sagrado do comando,

Estas marcas e sinais sumários,
Estes odores tropicais da fazenda,
Esses modos primordiais de Rainha negra,
Leram-me transparente e ademais,

Resta-me perguntar singular fêmea,
Onde me desenhas, onde me contemplas,
Sou Soba do marfim mineral,
Sou o beijo na aurora do recanto estival.

MB5


Sexta-feira, 8 de Abril de 2011

VIDAS INTERROMPIDAS


Vidas Interrompidas

Ocorreu-me falar mas detive-me,
Apeteceu-me tocar, congelei!
Bebericar o sangue jaguar,
Sentar e flutuar no teu canteiro,

Venenoso modo de amar,
O que nomeias e fixas,
Nessas presas de fêmea inclemente,
Onde a felicidade escasseia,

No eclipse da tua passagem,
No encanto aparente desse voo,
Vejo um abismo de deserta morte,
Medo aflito, completa dor,

Vidas interrompidas num instante,
Números da sorte onde repousas,
Múltiplas escadas onde passeias,
No vazio da memória recomeço distante.

M5B


Terça-feira, 5 de Abril de 2011

INSTANTE APAIXONADO


Instante Apaixonado


Algo súbdito, algo belo,
Algo puro e singelo,
Algo digno de viver,
Éter supremo do ser,

Algo remisso e promissor,
Algo passivo do deserto e da dor,
Magia latente e infiel,
Água intensa do teu fel,

Urge o momento da pele,
Surge o húmido instante,
Vibro e canto teu balanço,
Alcanço e cheiro-te,

Inclinam-se as Estrelas,
Param mecanismos inscritos no tempo,
Deito-me no teu lado distante,
Viajo livre num sonho efervescente e fiel.

M5B,
2011-03-30



Segunda-feira, 4 de Abril de 2011

ANJO CAÍDO


Anjo Caído

Pelo campo do teu mar,
Crescem flores de copiosa saudade,
Onde cinzas jazem em silêncio,
Surda emoção nocturna e cálido entardecer,

Nos teus olhos de Onça.
Leio e canto o que me ofereces,
Bebo o seio farto do teu ser,
Benedito alimento,

Que nestas asas quase rendidas,
Depositou a vela do amanhecer,
Intensidade serena,
Chama perfeita do entender,

Jardineiro inteiro apenas tu,
Minha dona eleita,
Podes nomear e eleger,
Em verdade me sinto humilde e pleno apenas por te proteger,

E somente nesse fito propósito,
Desci do firmamento para te ver,
Mas teu cheiro de rosas primas,
Despertou neste anjo caído a vontade de te viver.

M5B


Segunda-feira, 28 de Março de 2011

TORMENTO


Tormento

Neste peito já mirrado,
Neste corpo cansado,
Sopras-te um raio de morno vento,
Uma esperança um incenso,

De te cuidar e proteger em cumprimento,
Voto casto e doce,
Numa prece sussurrada em silêncio,
E devoto sacramento,

Sendo agora que caminho,
Pelo deserto do sofrimento,
Leio em retiro,
Cada instante e momento,

Do sonho que és inacessível,
Tempestade e tormento,
Que me incute medo e angústia ferida,
Morre em mim toda Vida,

M5B


Quarta-feira, 23 de Março de 2011

ADEUS


Adeus


Não me interessam emoções,
Não me cabem devaneios,
Não entro em escadas,
Não caio em rodeios,

Sou solitário e ambíguo,
Sou sólido e liquidez,
Sóbrio e errante,
Concentrado e descrente,

Não me revelo nem ateio,
Somente grito a minha cor,
Risco único e firme,
Abraço o vazio da tua teia,

Já perdido no teu vale,
Nada sinto, nada me cabe,
Nada cheiro ou me agita,
Morreu o Mito, findou uma Ideia.

M5B
2011-03


Domingo, 20 de Março de 2011

CREPÚSCULO DOS AMANTES


Crepúsculo dos Amantes

Afundo-me na curva do teu mar,
Avisto terra na margem dos teus seios,
Afundo o pensamento fluido,
No teu secreto olho,

Cheiro o seu desejo incontido,
Molho os dedos no teu inchaço,
Acosto o paladar no mistério,
Acordo meu centro predicado,

Subo ao cimo de ti,
Desço ao final de mim,
Penetro e saio sem fim,
Escuto o coro inflamado, alecrim,

Afundo-me num tecto recortado,
Afundo-me no grito surdo das minhas mãos,
Dádiva hirta do teu ventre irado,
Liberto meu sumo de alva dentro de ti,

Morres a tua rebentação em mim,
Tremes e rendes os punhos cerrados,
Renasces madrugada jasmim,
Celebro a lava noite Delfim.


Miguel Bérrio,
2010-07-27


SAUDADE

Saudade

Aflito cálculo,
Aflito recordo e percorro,
Aflito carpo e anulo,
Pensamento, razão e alma,

Aflito grito sem te ver,
Sem timbre nem destino sinalizado,
Sem a força e graça,
Da tua presença regular,

Marco luas e traços,
Não descanso, nem reajo,
Penso apenas sem rigor,
Na tua figura soberba, meu amor!

Dura aflição sem piedade,
Definha a vida desenhada,
Definha a esperança sonhada,
Resigno-me a ti, infinita dor.

Miguel Bérrio,
2010-07-29